SÉRGIO SAMPAIO

Acabo de assistir a esse documentário, via Ademir Assunção. Direção de Nayara Tognere. Sampaio (ou o ”compositor mais escancarado da música brasileira”, como brinca falando sério o amigo Fábio Henriques Giorgio, que foi quem me apresentou à obra do cara), em uma de suas várias canções brilhantes, canta que “nasceu o filho do ovo/ vai ser galo de terreiro/ ou frango assado no almoço”. Sampaio sempre foi galo de terreiro.

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NOTURNO DE SÃO PAULO…

… ou UMA PONTE DE BEIJOS SOBRE O ABISMO DA MEMÓRIA é o nome da crônica que o amigo Fabiano Calixto publicou domingo na Revista da Folha por ocasião do aniversário de SP. Leia aqui. O Fabiano tem um blog chamado Meu pé de Laranja Mecânica e há dois anos trocou Santo André pelo centro de SP. Vou te falar, Fabiano: apesar do Uriah Heep – hehe – é um belo texto. Abraço, meu velho.

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IMAGEM

“Aqui no Café Limor, por causa das nuvens baixas, a sombra vai aos poucos lambendo as ilhas iluminadas pela fraca luz elétrica, como se as chupasse por um canudinho”.

Amós OzO mesmo mar.

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SEM CHAVES E ÀS ESCURAS

Era um desses dias em que tudo corre bem.

Tinha limpado a casa e escrito

dois ou três poemas que me agradavam.

Não pedia mais nada.

Então saí pelo corredor para retirar o lixo

e atrás de mim, com um pé-de-vento,

a porta se fechou.

Fiquei sem chaves e às escuras

sentindo as vozes de meus vizinhos

através das suas portas.

É transitório, disse para mim mesmo;

porém assim também podia ser a morte:

um corredor escuro,

uma porta fechada com a chave para dentro.

O lixo nas mãos.

FABIÁN CASAS

Conheci este poeta argentino, há alguns anos, por intermédio do Joca Reiners Terron (que foi quem traduziu este poema). Não lembro bem. Provavelmente o Joca deve ter publicado este poema em seu blog, ou em algum outro lugar, eu me interessei de cara e por conta disso o Joca me mandou este e mais um ou outro que ele tinha traduzido dele. Falei Sem Chaves e às Escuras no último Tranqueiras Líricas que fiz no ano passado, no Centro Cultural São Paulo, com o Flu. É um lindo poema e foi bacana tê-lo feito no espetáculo. O Flu fez um clima de guitarra que na verdade já era um prenúncio de Não me mande flores, clássico do De Falla que ele emendou na sequência.

Há pouco tempo, o Joca postou outra tradução do Fabián Casas, uma espécie de ensaio poético, digamos, cujo ponto de partida é o filme Rumble Fish. Mais uma vez, gostei muito. E voltei a falar com o Joca que me indicou os livros dele. Comprei Horla City y Otros – Toda La poesia 1990-2010 (Cruz Del Sur). Está sendo ótimo tanto para conhecer mais a fundo um puta poeta como para treinar o espanhol de meus avós paternos (que eu não conheci) que saídos de Málaga aportaram por aqui na década de 30.

Me detengo frente a la barrera.

Es una noche clara y la luna se refleja

en los rieles. Apago las luces del auto.

Está bien, pienso, es bueno que nos demos um tiempo.

Pero no comprendo nuestra relación;

no sirvo para eso. “Acaso serviría de algo?”

Tu padre está enfermo y mi madre está muerta;

pero igual podría ir y tirarme encima tuyo

como todas estas noches. Eso es lo que sé.

Ahora la tierra vibra y um tren oscuro

lleva gente desconocida como nosostros.

FABIÁN CASAS

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O ELO PERDIDO

Engraçado que o Werner Herzog é um cineasta que me toca mais por seus documentários do que por suas ficções. Seus documentários são fabulares, “não-explicativos”. São mergulhos, investigações, “filmes-pergunta”. O primeiro que vi foi aquele sobre Klaus Kinski – Meu melhor inimigo – e depois o impactante Homem Urso. Cave of Forgotten Dreams trata de uma expedição à Caverna de Chauvet, no sul da França (pela primeira vez, alguém fora do restrito grupo de arqueólogos, historiadores da arte e paleontólogos teve acesso àquele impressionante “momento congelado no tempo”, nas palavras de Herzog.) Descoberta em 1994, a caverna foi reconhecida imediatamente como um dos mais importantes achados da história humana.

Graças a um deslizamento de rochas ocorrido há aproximadamente 20 mil anos, a caverna foi preservada de modo inacreditável abrigando vestígios intocados de neandertais e do cotidiano do paleolítico. Isto inclui as, talvez, mais belas e mais comprovadamente antigas pinturas rupestres, obras de “artistas anônimos” (como Herzog os chama) que viveram em torno de 32 mil anos atrás. Ao contrário da imagem padrão de Indiana Jones, o filme mostra também, lateralmente, o incrível aparato científico e tecnológico a serviço da arqueologia hoje. Os cientistas mapearam, usando escâneres a laser, cada milímetro da caverna. A localização de cada característica é conhecida. Conversando com um destes técnicos, em frente ao seu computador – onde vemos a reprodução tridimensional da caverna em milhões de pontos espaciais -, Herzog comenta: “É como se vocês criassem a lista telefônica de Manhattan, com 4 milhões de assinantes precisos. Mas será que eles sonham, choram à noite? Quais as esperanças deles? Vocês nunca saberão com uma lista telefônica…”. O pesquisador concorda: “Sem dúvida, nunca saberemos. O passado está definitivamente perdido”. E conclui: “O objetivo é criar histórias do que pode ter ocorrido na caverna durante o passado”. A partir disso, o filme empreende sua expedição. É fascinante, dentre outras coisas, o passeio que Herzog faz com a “curadora” da caverna.

Lembrei de várias coisas assistindo ao filme. Flashes das cavernas de cobertores que inventava no meu quarto, brincando de forte-apache, dos sistemas interligados de pontes, túneis, estradinhas e castelos que construía e destruía solitário nas areias da Praia Grande, das visitas da minha infância à Gruta de Maquimé e à Caverna do Diabo, da série Elo Perdido, que eu adorava, desse trecho da entrevista do Eddie Murphy à Rolling Stone:

Woody Allen tem uma frase: “Em vez de viver nos corações e mentes de outras pessoas, prefiro viver em meu apartamento”. É um consolo saber que uma parte de seu trabalho continuará vivendo depois que você morrer? (Risos) “Amo Woody Allen. É um consolo? Todo o período de documentar o trabalho de um artista, filmes, gravações, tudo isso tem 100 anos, no máximo. É muito novo. Beethoven e os outros filhos da puta não conseguiram nem ouvir a própria obra (…) E a obra dele atravessou gerações. A tecnologia permitiu tocar essas coisas para sempre, mas a realidade é que tudo isso vira pó, tudo é temporário. (…) Vi este documentário sobre Ronald Reagan, e foi algo ‘uau’. Dizem que ele entrou em casa trazendo uma Casa Branca de brinquedo que havia tirado de um aquário e falou: ‘Não sei o que estou fazendo com isso, mas sei que tem algo a ver comigo’. Tinha até se esquecido de que foi presidente! Independentemente do que você faça, tudo vai virar uma bobagem. Em 200 anos, tudo é poeira, e em 300 anos não é nada, e em mil anos é como se você nunca tivesse estado aqui”.

 

Lembrei também de Paulo Henriques Britto (“Muita louça ainda resta de Pompéia,/ mas lábios que a tocaram, nem um só”.) De Rodrigo Garcia Lopes (“O homem não é contemporâneo de sua origem”.) De Paulo Leminski, que escreveu que “os homens são apenas os órgãos sexuais das fábulas”, em Metaformose: “Heródoto percorreu muitos países e visitou muitos povos, por amor às histórias que tinham para lhe contar. No Egito, procurou templos perdidos no coração do deserto para ouvir da boca de um sacerdote quase centenário a história de um rei, de um obelisco, de um ídolo ou de um nome. Era um louco, alguém que Zeus tinha atingido na cabeça por um relâmpago. (…) Um dia, Heródoto voltou, barbas brancas como a espuma das ondas do mar de Atenas. Não trazia a unidade, trazia a dispersão. Terminou seus dias escrevendo suas Histórias, que lia para o povo na ágora da cidade, História, histórias, verdades, imaginações, não se sabe, não importa”.

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COMEDIANS

Larry David é um retardado. Seu humor é agressivo, e é assim desde Seinfeld, desde sempre. Em Curb your Enthusiasm isto é mais evidente, até porque ele não conta com o contraponto de sutilezas de Jerry. Na equação perfeita de Seinfeld, George Constanza – alterego de Larry na série – sempre foi o gerador dos risos mais, digamos, “incomodamente” engraçados. Onde Jerry é Duke Ellington, David/Constanza é John Lydon. Em outras palavras, e plagiando Silverster Stallone, um é a doença, o outro, a cura, em suma, o Lennon e McCartney das sitcoms. Em Curb, Larry David, assim como Seinfeld em Seinfeld, interpreta uma variação fictícia de si mesmo, mas de modo muito mais radical. Tudo gira em torno dele. Não há o auxílio de personagens brilhantes como em Seinfeld. A linguagem é quase em falso documentário, o que amplifica a confusão entre autor e personagem, dando a falsa impressão de não estarmos diante de uma série de ficção. Faz tempo que a criatividade norte-americana – sobretudo os roteiristas – migrou do cinema para a TV. Não precisa ir muito longe pra constatar isto, é só ver Família Soprano. Há séries extremamente bem escritas, e, para voltar às comédias, basta citar Two and a half man e The Big Bang Theory, por exemplo. Mas sem juízos comparativos estas são séries tradicionais. Muito boas. Mas tradicionais. O que Larry David faz está em outra categoria. Se substituirmos a palavra “livro” por “série” neste trecho de Trópico de Câncer, de Henry Miller, temos uma boa definição de Curb: “Isto é injúria, calúnia, difamação de caráter. Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, isto é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus…”

Digo tudo isto porque, primeiro, sou fã de Larry David, e, segundo, porque descobri no ano passado – indicação do amigo Fabio Danesi – um outro cabra bom de insulto e cusparadas: Louis C. K. e sua série Louis. Disse, uns posts atrás, que Louis é uma espécie de Seinfeld melancólico. A aproximação é simples já que ambos intitulam as séries com seus próprios nomes. Assim como Jerry, Louis é um comediante de stand up, e, assim como Jerry e David, também interpreta a si mesmo. No mais, são diferentes em tudo. Louis é inseguro, não está à vontade no mundo – David, embora também não esteja, tem confiança, até certa arrogância na revelação do seu universo. Louis tem, ainda, uma fagulha de algo impensável para Larry e até mesmo para Jerry: compaixão. Mas vejo uma semelhança entre Larry e Louis: se Seinfeld subverteu o formato dentro do próprio formato, os dois fazem o que podemos chamar de “série de autor” (só pra constar, Louis escreve, produz, dirige e edita os episódios.) Em outra chave, claro, mas do mesmo modo que o Nirvana, Seinfeld ocupou um ponto único no gráfico da coisa. Um implodiu os limites entre alternativo e mainstream, fanzine e revista de variedades; o outro, entre autoral e enlatado, inteligência e massificação, TV fechada e TV aberta. Curb your enthusiasm e Louis, não. Eles são possíveis apenas na TV fechada. Mas como hoje tudo está à distância de um torrent, isso pouco importa. Em tempos politicamente babacas, é bom ver caras como esses com uma radicalidade rara inclusive em obras de “alta cultura” expondo os demônios humanos e debochando do mundo. Um sarro.

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HOJE

Quem abre os trabalhos deste projeto de atores que cantam são os parceiros da Fábrica de Animais. Aliás, hoje amplio a parceria para além de algumas letras fazendo também a luz do espetáculo. Fábrica de Animais é Fernanda D’Umbra (voz), Flávio Vajman (gaita & washboard), Sérgio Arara (quitarra), Caio Góes (contrabaixo) e Cristiano Miranda (bateria). Às 21h no SESC Consolação (Dr. Vila Nova, 245). Ingressos R$ 10. Na sexta-feira, quem sobe ao palco são os hermanos da Saco de Ratos.

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ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

Curta de Jairo Ferreira, filmado em Super 8, no lançamento do livro homônimo de Roberto Bicelli, em dezembro de 1977, Teatro Célia Helena, São Paulo.

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PORNOGRAFIA

Acaba de sair em e-book (e, logo mais, em POD – impressão sob encomenda) o livraço de estreia do Nilo Oliveira, “Pornografia Pessoal de um Ilusionista Fracassado”, do qual tive a honra de escrever a orelha. Saiba mais aqui. Recomendo com veemência.

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OH BOY

Irmãos Gallagher, Elvis Costello, Paul McCartney (que comparece aqui com It´s so easy). Todos os grandes melodistas do rock´n´roll passaram por Buddy Holly.

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