Engraçado que o Werner Herzog é um cineasta que me toca mais por seus documentários do que por suas ficções. Seus documentários são fabulares, “não-explicativos”. São mergulhos, investigações, “filmes-pergunta”. O primeiro que vi foi aquele sobre Klaus Kinski – Meu melhor inimigo – e depois o impactante Homem Urso. Cave of Forgotten Dreams trata de uma expedição à Caverna de Chauvet, no sul da França (pela primeira vez, alguém fora do restrito grupo de arqueólogos, historiadores da arte e paleontólogos teve acesso àquele impressionante “momento congelado no tempo”, nas palavras de Herzog.) Descoberta em 1994, a caverna foi reconhecida imediatamente como um dos mais importantes achados da história humana.
Graças a um deslizamento de rochas ocorrido há aproximadamente 20 mil anos, a caverna foi preservada de modo inacreditável abrigando vestígios intocados de neandertais e do cotidiano do paleolítico. Isto inclui as, talvez, mais belas e mais comprovadamente antigas pinturas rupestres, obras de “artistas anônimos” (como Herzog os chama) que viveram em torno de 32 mil anos atrás. Ao contrário da imagem padrão de Indiana Jones, o filme mostra também, lateralmente, o incrível aparato científico e tecnológico a serviço da arqueologia hoje. Os cientistas mapearam, usando escâneres a laser, cada milímetro da caverna. A localização de cada característica é conhecida. Conversando com um destes técnicos, em frente ao seu computador – onde vemos a reprodução tridimensional da caverna em milhões de pontos espaciais -, Herzog comenta: “É como se vocês criassem a lista telefônica de Manhattan, com 4 milhões de assinantes precisos. Mas será que eles sonham, choram à noite? Quais as esperanças deles? Vocês nunca saberão com uma lista telefônica…”. O pesquisador concorda: “Sem dúvida, nunca saberemos. O passado está definitivamente perdido”. E conclui: “O objetivo é criar histórias do que pode ter ocorrido na caverna durante o passado”. A partir disso, o filme empreende sua expedição. É fascinante, dentre outras coisas, o passeio que Herzog faz com a “curadora” da caverna.
Lembrei de várias coisas assistindo ao filme. Flashes das cavernas de cobertores que inventava no meu quarto, brincando de forte-apache, dos sistemas interligados de pontes, túneis, estradinhas e castelos que construía e destruía solitário nas areias da Praia Grande, das visitas da minha infância à Gruta de Maquimé e à Caverna do Diabo, da série Elo Perdido, que eu adorava, desse trecho da entrevista do Eddie Murphy à Rolling Stone:
Woody Allen tem uma frase: “Em vez de viver nos corações e mentes de outras pessoas, prefiro viver em meu apartamento”. É um consolo saber que uma parte de seu trabalho continuará vivendo depois que você morrer? (Risos) “Amo Woody Allen. É um consolo? Todo o período de documentar o trabalho de um artista, filmes, gravações, tudo isso tem 100 anos, no máximo. É muito novo. Beethoven e os outros filhos da puta não conseguiram nem ouvir a própria obra (…) E a obra dele atravessou gerações. A tecnologia permitiu tocar essas coisas para sempre, mas a realidade é que tudo isso vira pó, tudo é temporário. (…) Vi este documentário sobre Ronald Reagan, e foi algo ‘uau’. Dizem que ele entrou em casa trazendo uma Casa Branca de brinquedo que havia tirado de um aquário e falou: ‘Não sei o que estou fazendo com isso, mas sei que tem algo a ver comigo’. Tinha até se esquecido de que foi presidente! Independentemente do que você faça, tudo vai virar uma bobagem. Em 200 anos, tudo é poeira, e em 300 anos não é nada, e em mil anos é como se você nunca tivesse estado aqui”.
Lembrei também de Paulo Henriques Britto (“Muita louça ainda resta de Pompéia,/ mas lábios que a tocaram, nem um só”.) De Rodrigo Garcia Lopes (“O homem não é contemporâneo de sua origem”.) De Paulo Leminski, que escreveu que “os homens são apenas os órgãos sexuais das fábulas”, em Metaformose: “Heródoto percorreu muitos países e visitou muitos povos, por amor às histórias que tinham para lhe contar. No Egito, procurou templos perdidos no coração do deserto para ouvir da boca de um sacerdote quase centenário a história de um rei, de um obelisco, de um ídolo ou de um nome. Era um louco, alguém que Zeus tinha atingido na cabeça por um relâmpago. (…) Um dia, Heródoto voltou, barbas brancas como a espuma das ondas do mar de Atenas. Não trazia a unidade, trazia a dispersão. Terminou seus dias escrevendo suas Histórias, que lia para o povo na ágora da cidade, História, histórias, verdades, imaginações, não se sabe, não importa”.
também curto os documentários do herzog (e acho melhor que as ficções). acho um barato um descompromisso dele com alguns fatos. esses dias tava lendo algo em que ele diz que quer ser um dos caras que vão enterrar o cinema verdade.
Pode crer, Bruno. Embora eu não veja como um descompromisso do cara. Vejo mais como um questionamento dos fatos, de colocar em dúvida, enfim, blablablá. Aproveitando: bem legal o seu texto pro livro do Carlaccio, hein? Abraço.
valeu, Marcelo. o descompromisso que eu falei é esse negócio da liberdade que ele dá pra ele mesmo de brincar com uns fatos, tipo pedir pro entrevistado contar um sonho que foi dele como se fosse dela e colocar isso no meio.
Com certeza, Brunão. Bobeira minha. Tinha entendido como desleixo. Abraço meu velho.