Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais nada.
Então saí pelo corredor para retirar o lixo
e atrás de mim, com um pé-de-vento,
a porta se fechou.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes de meus vizinhos
através das suas portas.
É transitório, disse para mim mesmo;
porém assim também podia ser a morte:
um corredor escuro,
uma porta fechada com a chave para dentro.
O lixo nas mãos.
FABIÁN CASAS
Conheci este poeta argentino, há alguns anos, por intermédio do Joca Reiners Terron (que foi quem traduziu este poema). Não lembro bem. Provavelmente o Joca deve ter publicado este poema em seu blog, ou em algum outro lugar, eu me interessei de cara e por conta disso o Joca me mandou este e mais um ou outro que ele tinha traduzido dele. Falei Sem Chaves e às Escuras no último Tranqueiras Líricas que fiz no ano passado, no Centro Cultural São Paulo, com o Flu. É um lindo poema e foi bacana tê-lo feito no espetáculo. O Flu fez um clima de guitarra que na verdade já era um prenúncio de Não me mande flores, clássico do De Falla que ele emendou na sequência.
Há pouco tempo, o Joca postou outra tradução do Fabián Casas, uma espécie de ensaio poético, digamos, cujo ponto de partida é o filme Rumble Fish. Mais uma vez, gostei muito. E voltei a falar com o Joca que me indicou os livros dele. Comprei Horla City y Otros – Toda La poesia 1990-2010 (Cruz Del Sur). Está sendo ótimo tanto para conhecer mais a fundo um puta poeta como para treinar o espanhol de meus avós paternos (que eu não conheci) que saídos de Málaga aportaram por aqui na década de 30.
Me detengo frente a la barrera.
Es una noche clara y la luna se refleja
en los rieles. Apago las luces del auto.
Está bien, pienso, es bueno que nos demos um tiempo.
Pero no comprendo nuestra relación;
no sirvo para eso. “Acaso serviría de algo?”
Tu padre está enfermo y mi madre está muerta;
pero igual podría ir y tirarme encima tuyo
como todas estas noches. Eso es lo que sé.
Ahora la tierra vibra y um tren oscuro
lleva gente desconocida como nosostros.
FABIÁN CASAS