JAIRO FERREIRA

Cinema de Invenção, do Jairo Ferreira, é um destes livros que costumamos chamar de “obras de referência”. Durante muito tempo, eu adorei os filmes que o Jairo citava e analisava com uma escrita pessoal, oswaldiana e apaixonada sem, no entanto, tê-los visto. Quando, aos poucos, consegui assistir a grande parte daqueles filmes (inclusive os dele), dificílimos de serem exibidos, gostei de poucos. Mas não importa. Entre “alucinações vikings” e não a história, mas a fábula de toda uma geração, a da boca do lixo paulistana, o livro para mim continuou – e continua – fascinante, contundente, engraçado, poético.

Tive oportunidade de conversar isso tudo com o próprio Jairo quando o conheci em uma oficina de Super-8, na Funarte, em meados dos 90. Ficamos amigos, escrevi um perfil dele para um fanzine que eu fazia na época com o Marcelo Capanema, o Ruptura, além de entrevistá-lo no programa de mesmo nome que mantive durante dois anos na Rádio Vitrola. Não é mera coincidência o fato do mesmo grupo que levava a rádio na raça – Robson Timóteo, Piti etc. – ser o mesmo que hoje leva, também na raça, o Cidadão do Mundo, sofisticação demais para uma cidade do ponto de vista cultural imbecil como São Caetano. Também não é coincidência que hoje funcione lá o Cineclube Jairo Ferreira.

O Jairo dizia que eu era o “Roberto Piva dos anos 90”. Ele pirava a toda hora com essas hipérboles. Do tipo “Sinhô é o Homero do samba”. Eu retrucava dizendo que ele era o “Bazin da Baixada do Glicério”. Quando o entrevistei na rádio, ele levou um roteirinho, com tópicos de sua vida, que a toda hora botava em ação. Por exemplo: às vezes, do nada, ele interrompia uma pergunta minha com uma narração radiofônico-sensacionalista, estilo “O Bandido da Luz Vermelha”: “8 anos de idade: disco voador na Vila Carrão!” (meu amigo Batata filmando tudo numa VHS, desde quando fomos buscá-lo em casa, todo o trajeto de carro etc. A ideia é um dia reunir essas imagens num filme em homenagem a ele.)

O Jairo tinha uma visão única – místico-concretista (mezzo Aleister Crowley mezzo irmãos Campos) – do cinema. Ao lado do Ivan Cardoso, foi precursor do cinema experimental em Super-8. Também escreveu roteiros como o O Pornógrafo, de João Callegaro, e coordenou o Cineclube Dom Vidal. Escrevia críticas desde 1966, quando ingressou no São Paulo Shinbum, jornal voltado à colônia japonesa paulistana. Foi crítico da Folha de São Paulo (1976-1980) além de colaborar com inúmeras publicações como Jornal da Tarde, Cine Imaginário e Estadão. No Shinbum, o Jairo brincava ser o único crítico de cinema que tinha seus textos estampados na primeira página (como todos sabem, jornal japonês é lido de trás pra frente). Seu primeiro filme, A Via Sacra, feito em parceria com o lendário poeta Orlando Parolini com fotografia do amigo Carlos Reinchenbach, não existe mais. Nunca existiu. Segundo Jairo, “o Parolini picotou todos os rolos numa das paranóias de 68”.

Na oficina de Super-8, um dia ele chegou com um balde, desses antigos, de lata. Sem falar nada, caminhou até o fundo da sala e antes de se sentar o bateu com tudo em cima da mesa. Tinha um adesivo colado no balde, onde se lia, escrito à mão: “A Panela do Diabo”. Ele disse que ainda não tinha recebido porra nenhuma da Funarte e pediu pra gente jogar umas moedas ou o que quer que fosse, ticket restaurante, vale transporte, lá dentro. Vários abandonaram o curso, sobretudo os que foram em busca de uma oficina realmente prática, do tipo aprender a pilotar uma câmera de Super-8, revelar os filmes etc. Eu estava lá para isso também, mas fiquei. Já tinha lido seu livro e queria saber até onde aquele cara ia. Evidentemente ele não tinha a menor didática – nem saco – para dar uma oficina. Fiquei sabendo depois que foi seu amigo Márcio Souza que armou o lance, já que o Jairo estava em dificuldades financeiras, que, pude constatar também, era uma constante em sua vida.

Imagens que guardo de seus filmes: 1) o Arnaldo Jabor sendo empurrado na piscina em Horror Palace Hotel, registro do Festival do Filme de Horror Brasileiro que rolou simultaneamente ao Festival de Brasília de 1978; uma espécie de invasão bárbara à seriedade oficial do festival, com o Sganzerla bancando o entrevistador. 2) o Jairo falando algo sobre estética, no Vampiro da Cinemateca. Ele está de perfil com uma placa de trânsito fixada na parede, de frente para ele, mas com a seta virada para o lado oposto, ou seja, apontando para o seu nariz. 3) no mesmo filme, o Orlando Parolini, de terno e gravata, dizendo que vai “recitar um poema de sua autoria”. Só que o áudio começa a falhar. Fica assim durante um tempo, sem entendermos o que o ele está falando, até que surge a voz distorcida do próprio Jairo – sem cortar a imagem do Parolini – dizendo que “o som está com problema porque a Kodak diminuiu a banda sonora dos filmes: FILHOS DA PUTA!”.

A última vez que o encontrei o alcoolismo tinha se intensificado. Havia nele um misto de revolta, de tristeza agressiva, sei lá. Ninguém sabe os estragos que cada um leva dentro de si. Um amigo, um inventor nato (só mesmo o Jairo pra ter visto um disco voador na Vila Carrão!) que seja nos filmes, seja nos textos, fundiu o cinema à própria vida numa espécie de perpétua metalinguagem, que, como ele dizia, “é a consciência do beco sem saída”.

[Post originalmente publicado em meu blog antigo, da UOL, em 15/01/2008. Republico por conta da homenagem que o CCBB fará ao Jairo, a partir de amanhã. Saiba aqui.]

Trecho de Godard nunca passou fome? (06/08/1970), in Críticas de Jairo Ferreira – Os anos do São Paulo Shinbun, organizado por Alessandro Gamo:

“O filme em questão é Duas ou Três Coisas que Eu sei sobre Ela (Cine Bretagne). Um dos filmes mais chatos do diretor mais chato do cinema. Márcio Souza esculhambando Godard: “Pensando bem, o problema do Godard é que ele não tem senso de humor”. Exato. Não adianta ter aquele QI, embora, numa certa dose, seu grande mérito tenha sido a invenção do antiespetáculo cinematográfico ou a objetividade total. Um personagem do filme: “Em cinema não se pode falar em franqueza” (…) Não há análise a se fazer de Duas ou Três Coisas, que já é uma auto-análise, a metalinguagem, e muito menos crítica a se fazer de uma autocrítica. Esse jogo de espelhos tão ao gosto de Décio Pignatari é, de fato, uma brincadeira ou exercício intelectual irritante demais para quem está passando fome”.

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