HOJE

O amigo e poeta Sérgio Mello tem este lance – “a melancolia é um vestido de noite usado de dia” – cujo decote cai perfeitamente nesta “Barfly Woman”. Porque os versos de Luana Vignon – que gosta das “coisas simples e densas/ sem gelo/ dose dupla”“desorganizam a orquestra” do comedimento.

Não há fórmula nestes tiros que vem do paraíso. Há vida, sem polimentos, “sorvete de uva pingando na barra do uniforme” – e dor.

Como a voz de Tom Waits – ou a de Nelson Cavaquinho – os poemas aqui também andaram bebendo. Aliás, nem é poesia o que você lerá a seguir. Assim como não são gratuitas as invocações dos autores de Luz Negra e Rain Dogs, sem contar Nina Simone, Elmore James, Koko Taylor, Miles, Cohen, Coltrane…

Chorando “quieta no banco de um ônibus errado” um headphone espetado na alma –, Luana é a pianista de um cassino abandonado num poema do Ferlinguetti. Uma cantora negra que canta-escreve blues e souls que só poderiam sair da garganta de alguém que “caminhou pelo sótão/ e alimentou seus ratos”. Tão cruamente sinceros quanto um fim de noite.

Bote então este livro na vitrola. A Luana é uma espécie de Ângela Ro Ro, de scat singer da poesia. Que sabe que “os piratas nunca dormem” e que o vinho sempre acaba antes da sede. Por isso “faz tanto silêncio dentro do seu berro”.

[Textinho de apresentação que escrevi – una honra – para o livro de estreia de Luana Vignon. Que marca também a estreia, como falei uns posts abaixo, da PANELINHA BOOKS – iniciativa da Luana, do Jarbas Capusso e do Rodrigo Sommer. Um brinde!]

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6 respostas para HOJE

  1. zema ribeiro disse:

    é pela panelinha que o teu próximo sairá? opa!

    ei, me manda o contato da editora (ou da luana) por e-mail, por favor!

    gracias! abração!

  2. Randall disse:

    Baita texto! Vou buscar esse livro aí, certeza, mas que honra ter um texto de apresentação desse! Puta que pariu!

  3. Ivan disse:

    Marcelo:

    postei um comentário no blog do Mário e perpetrei a seguinte frase: “Ninguém mais íntegro que você, Mário, poderia saudar a entrada da Luana nesse time de poetas.”

    Aí apareci aqui e embatuquei, à lá Groo: “Terei errado?”

    Mas na sequência, refleti mais que Alice através do espelho, e me dei conta que, quando destaquei a integridade do Mário, estava falando, em nome dele, numa patota que inclui Marcelo Montenegro, Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes, Maurício Arruda Mendonça, Márcio Américo, Lourenço Mutarelli, Paulo de Tharso, Bac, Brum, Linguinha, Carcará, e a renca toda que veio, vem e virá –

    e pra não dizerem que sou muito puxa-saco, reservo a saudação final a todas as musas de verdade, mulheres dos sonhos mas também de carnes e ossos (e neurônios, que são o verdadeiro fundamental poético) —

    elas podem encontrar sua voz humana
    na poesia da Luana.

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