DOUTOR

Mais ou menos assim a história que uma amiga me contou uma vez: ela estava na Mercearia São Pedro e, depois, iria para uma festa com uns amigos. Nesse dia, o Sócrates estava lá, junto com o Xico Sá, talvez saindo da TV Cultura onde faziam juntos o Cartão Verde. Minha amiga – bem como as outras amigas que estavam com ela –, disseram para os amigos que já estava na hora de irem para a festa. Mas esses amigos estavam tomando uma cerveja com o Sócrates. “Vocês têm noção disso? Nós estamos na mesma mesa que o Doutor Sócrates! Como vocês querem que a gente vá para uma festa agora?!”

Já citei por aqui o trecho de um poema do Paulo Henriques Britto, chamado Geração Paissandu: “Fui jovem, com a sede de todos,/ em tempo de seco fascismo./ Por isso não tive pátria, só discos”. Transferindo para o futebol, sou torcedor do Santos, mas a única pátria que existe para mim no futebol é o próprio futebol. Uma pátria que vai de Platini a Pita. Sempre gostei daquele Corinthians da democracia. E a elegância ácida que o Doutor desfilava no campo, mantinha também na vida. Essa coerência e o estilo único e improvável – literário, praticamente um Dostoievski da bola – sempre me encantaram. Foi o jogador que mais admirei. Confesso que isto ganhou adicionais quando ele jogou um pouco no meu time no fim da carreira. Também quando eu soube que ele fora santista quando garoto.  

E, claro, a seleção de 82… Que me deixou – e a uma geração inteira – com uma marca como a que só os grandes livros e grandes filmes são capazes de deixar em uma pessoa. Dessas coisas que nos definem. E apesar de todo o catálogo de gols antológicos que a seleção produziu ali, meu preferido sempre foi o do Sócrates contra a Itália. Jogada magistral do Zico e uma conclusão de precisão absurda, uma tacada de sinuca: num espaço inventado entre o Zoff e a trave, o pó branco da cal subindo quando a bola raspa a linha do gol. Gênio.

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5 respostas para DOUTOR

  1. Pingback: Sócrates, brasileiro | zema ribeiro

  2. Paula Klaus disse:

    na hora que soube que ele tinha ido embora eu pensei em você, numa noite estávamos no parlapatões e você contou essa história da mercearia, e lembro que você enfatizou “pô! era o Doutor Sócrates!”… quando uma pessoa como ele vai embora a gente só consegue ficar um tanto mais triste, né Marcelo?

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