SOBRE PRESÉPIOS e MUNDOS DESABANDO

presepioNo final dos anos 90 fiz vários frilas para um escritório que produzia livros institucionais. “Os textos têm que ser saborosos”, a única sinalização que o cara do escritório me deu. Foi muito bacana, baita escola, estiva da narrativa. Pesquisei e escrevi quilos de textos para livros – formato grande, de arte, coisa fina – sobre, por exemplo, o Memorial do Imigrante, que funciona numa antiga hospedaria ao lado do metrô Bresser. Neste trabalho, aliás, pude dar um presente ao meu pai: um atestado simbólico de desembarque dos meus avós, vindos de Málaga, Espanha, na década de 30.

Uma vez eu esperava o ônibus na Av. Nazaré, ao lado do Museu do Ipiranga, de onde acabara de sair com as fotocópias de um texto amarelado, única fonte do trabalho de então, escrever a história de uma preciosidade do acervo do Museu de Arte Sacra: um presépio napolitano do século XVIII, trazido da Itália por Ciccilo Matarazzo no fim da década de 40. O presépio tem mais de 1600 peças, é lindo e além da clássica cena cristã, recria com realismo assombroso o cotidiano de uma aldeia napolitana. Segundo o diretor de arte da montagem, Sílvio Galvão, é “um quadro renascentista em três dimensões”.

O presépio passou por uma surreal via crucis burocrática, prefeitura empurrando para estado, estado empurrando para prefeitura, transportado de um lugar para outro até se estabelecer, de vez – quase 50 anos depois! – na antiga Casa do Capelão, perto da Pinacoteca. A figura chave e teimosa na preservação desse presépio foi Lourdes Duarte Milliet, convidada pelo próprio Ciccilo a cuidar do acervo – muitas peças precisavam de restauro, etc. – logo após seu retorno da Europa e de ter doado a obra à prefeitura de São Paulo. Não fosse por ela, é provável que o presépio tivesse mofado em alguma sala oficial.

As fotocópias em minhas mãos eram uma espécie de diário dessa mulher. Eu estava cansado, tinha sido desgastante conseguir autorização para tirar cópia daquilo. Então uma conhecida, que morava mais ou menos perto da casa em que eu morava na época, passa de carro em frente ao ponto. Ela diminuiu a velocidade e ficamos nos olhando até nos reconhecermos. Ela abriu o vidro do passageiro e me ofereceu carona.

Fomos conversando. Os EUA tinham acabado de invadir o Iraque. Ela perguntou o que eu estava fazendo ali, expliquei mais ou menos e ela solta, com um sorrisinho meio metido: “o mundo desabando e você aí, pesquisando sobre presépios”… Sorrio um sorriso de “pois é” e pergunto amistosamente o que ela estava fazendo ali. Ela responde que estava voltando do trabalho. E trabalha em que? – pergunto. Em uma empresa de importação ou exportação de alguma coisa, “por quê?”. “Por nada” – respondo.

[Organizando textos do meu antigo blog. Este foi publicado em 11/04/2008]

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