A ÚLTIMA NOITE

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Esses dias pesquei de novo num telecine da vida “A Última Noite”, do Robert Altman. Gosto muito desse filme. É o último que ele fez e tem cara do último filme de alguém como o Robert Altman. Um filme que fala da morte celebrando a vida, meio que uma homenagem à ingenuidade. Lóxico, é Robert Altman, entonces, sem perder lo sarcasmo jamás. Nem a melancolia. E nem o humor. E o Altman sempre foi desses caras – o Jairo Ferreira dizia que o Carlão Reicheinbach filmava apenas para se livrar das suas toneladas de 45 rpm – que parecia fazer filmes só para colocar canções. São caras que sabem que pode caber numa canção – como digo no meu poema “Plano” – “uma dor que não cabe no mundo”. Assistindo ao filme, lembrei uma entrevista na qual o Altman comparou o ato de fazer filmes a amigos fazendo castelos de areia na beira da praia. Aliás, não só um castelo. Mas aqueles puta complexos – quase pequenas cidadelas – que envolvem castelos enormes e outros menores, pontes, muralhas e intricados sistemas de túneis ligando tudo a tudo. Quando acham que a coisa ficou pronta, os amigos vão para a barraca em frente e começam a beber suas cervejas e a fumar seus baseados. Observam e admiram, satisfeitos e exaustos, o que acabaram de fazer, mas também, imersos nas próprias gargalhadas, rememorações de detalhes e assuntos que viram outros assuntos, se esquecem daquilo. E assim são os filmes, segundo Robert Altman. Alguns castelos, sabe-se lá porque, ficam um tempão ali sem que as ondas que chegam até a beira os destruam. Outros, não. Desmoronam na primeira ondinha. Aí os amigos se entreolham, bêbados. “Caralho!”. “E aí? Topam ir lá de novo?”. “Puta. Que saco. Será?”. “Tá. Vamos lá, vai”. “Só que agora eu quero cavar os túneis!”, diz um. E o outro não quer mais ficar buscando água na beira do mar pra umedecer a areia, então trocam as funções e aquele “espírito da barraca” é levado para a construção de uma nova cidadela de areia. A vida é meio isso, não? E “A Última Noite” também. Como digo em outro poema, “Substância”, “algumas músicas a gente nunca sabe se são alegres/ ou se são tristes/ do ponto exato/ onde deram o nó”.

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