BABY SANTIAGO: Diário de Bordo

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Tenho trabalhado há alguns anos num documentário sobre o Baby Santiago, uma lenda dos primórdios do rock brasileiro. É uma das coisas da qual mais me orgulho. Tem sido um privilégio poder desfrutar de cervejas e risadas – da amizade, em suma – com o Baby, que completou 80 anos em 2013. Saio leve e comovido de cada encontro nosso no Bom Retiro – Baby mora há mais de 30 anos no bairro, convertendo-se em figura folclórica (registre-se que quase ninguém ali sabe realmente o que ele fez – o folclórico é exclusivamente por conta de sua própria figura, aliás, figuraça, grande pessoa e grande personagem.) Tenho algumas preciosas horas de causos contados pelo Baby além de depoimentos de pessoas fundamentais para contar esta história, como Tony Campelo, Albert Pavão e Demétrius. Estes – e outros – formam a primeira dentição do rock paulista que foi meio que soterrada pelo surgimento avassalador da Jovem Guarda.

Por insistência e contribuição inestimável do meu amigo Robson Timóteo, já inscrevemos – sem sucesso – o filme em dois editais. Mas deixa pra lá. A lamentar apenas a falta de tempo para poder se dedicar mais integralmente à coisa e a impossibilidade de poder remunerar o imenso talento dos meus amigos – além do Robson, Edson Kumasaka, diretor de fotografia e grande zagueiro nas horas vagas (na foto, eu e Baby numa das sessões de gravação feitas no estúdio do Edinho). Provavelmente é um erro grosseiro da minha parte dizer que prefiro fazer assim. Mas sabe como é. Fugi a minha vida inteira de chatices e burocracias. Sou apenas um fazedor de fanzines latino-americano – salve, Belchior – formado por todos os “do it yourself’s” possíveis.

Conhecido como o “Chuck Berry brasileiro”, Baby Santiago foi um dos primeiros autores do rock. Ou seja. Resolveu fazer suas próprias letras num momento em que o gênero por aqui era basicamente feito de versões. De certa forma, antecipou os grandes letristas do rock brasileiro (compôs, por exemplo, em 1962, uma brincadeira chamada “Xaxado Rock”, mais de 10 anos antes de Raul Seixas fazer “Let me Sing”!).

Baby sempre foi mais do samba e – como ele mesmo diz – entrou no rock por acaso. Não teve portanto o menor problema e/ou ressentimento em deixar o cenário – apenas uma das coisas que pintaram em sua vida – para virar crooner de uma rede de hotéis. Antes disso, vivia como técnico de máquinas de escrever. Uma vez, perguntei se ele ainda mexia com isso. Disse que não. Mas que de vez em quando ainda “aparece algum despachante maluco lá em casa”. (Quero, inclusive, usar essa imagem no documentário, me reconhecendo prosaica e pretensiosamente nessa figura do “despachante maluco”.)

Baby deixou poucos, mas espertíssimos e bem humorados clássicos como “Rock do Saci” – sucesso com Demétrius em 1961 – e a incrível “Adivinhão” – que, gravada originalmente por George Freedman no mesmo ano, ganhou releituras de Cokeluxe, Kid Vinil, Jerry Adriani e Thunderbird e os Devotos de Nossa Senhora Aparecida. O cara é simplesmente idolatrado por bandas de rock’a’billy. Ano passado, a pedido do Albert Pavão (autor do fundamental “Rock Brasileiro – 1955/65 – Trajetória, Personagens e Discografia”, Edicon), levei o Baby na feira de vinis que acontece na galeria ao lado do Trianon, na Av. Paulista. A Soninha estava por lá – era época de campanha eleitoral. O Robson – que estava registrando tudo – brincou que o Baby conseguiu roubar a atenção da candidata. Foi bacana ver a emoção dos colecionadores em receber visita tão ilustre. Mais que isso, foi comovente o reencontro entre Baby e Albert, que não se viam há 40 anos. Baby foi gravado ainda por Tony Campelo, The Jet Blacks, Reginaldo Rossi e Sergio Murilo, dentre outros.

E era aqui que eu queria chegar, por hoje. No Reginaldo Rossi.

A primeira canção de Baby é uma versão que ele fez meio de brincadeira para “Long tall sally”, de Little Richard, chamada “Bata Baby”. Gravada por Wilson Miranda em 1960, é a responsável pelo “Baby” de seu apelido. O relativo sucesso (anos depois, a música entraria na trilha da novela “Estúpido Cupido”) fez com que Baby fosse convidado por Adoniran Barbosa a cantar a música integrando sua trupe “Charutinho e seus maloqueiros”. Formada por palhaços, cantores, dançarinas e quiçá aqualoucos e cuspidores de fogo, a turma – comandada por seu criador – se reunia todos os dias nos arredores da praça João Mendes para ver para onde ia. E assim rodavam diariamente o estado de SP se apresentando em circos – quase sempre mais de um por dia. Baby conviveu com Adoniran por bons anos e tem histórias ótimas sobre – e este é apenas um dos “desvios” saborosos da história de Baby Santiago.

Mas voltando ao Reginaldo Rossi. Assim que chegou em SP, Baby foi um dos primeiros amigos que ele fez. Foi meio que por intermédio do Baby que o Reginaldo conseguiu se encaixar neste circuito de apresentações em circos. Eu já tinha até arrumado – e aqui entra outra ajuda inestimável de amigo, o Rodrigo Carneiro – o telefone do empresário do Reginaldo Rossi para entrevistá-lo para o documentário. Mas infelizmente não deu tempo. Ele gravou duas composições de Baby. Essa é a minha preferida.

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9 respostas para BABY SANTIAGO: Diário de Bordo

  1. aLBERT pAVÃO disse:

    Muito boa a história, Marcelo. Vai dar um excelente documenTÁRIO.

  2. Sandra Aparecida Santiago disse:

    Muito boa a música, gostei da entrevista.

  3. Gabriel disse:

    Fantástico. Comecei a me interessar pela história do início do rock no Brasil desde adolescente, através dos discos que comprava nos sebos e pelo livro escrito pelo Albert Pavão. Pena que no Brasil a preservação da história, principalmente no contesto musical, é pouco valorizada. Por isso tantas aberrações musicais na atualidade. Confusão na hora de distinguir rock amos 50 e Iê-Iê-Iê denominado depois de jovem guarda. Marcelo, parabéns pela iniciativa. Quem sabe teremos o prazer de assistir um dia, um filme que retrata este período ou a biografia daqueles cantores: Celly, Betinho, Albert, Demétrius, Sérgio Murillo dentre outros.

  4. Gabriel disse:

    Preciso saber com o Albert, se existe uma nova edição ou continuidade do livro Historia do Rock, pois o meu é a 1 ed. acho q dos anos 80. Valeu.

  5. Gabriel, as duas coisas: ele lançou uma segunda edição revista e ampliada de “Rock Brasileiro: 1955-65”. E lançou um livro novo tbm, no ano passado: “Do Blues a Jovem Guarda”. Ambos pela EDICON.

  6. Gabriel disse:

    Obrigado. Vou procurar na editora.

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